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Inteligência artificial na patologia

O que a tecnologia já faz nas lâminas do câncer de próstata e até onde ela vai.

Dr. Petronio Melo, urologistaCRM-SP 157.598 · RQE 70.275
Revisado pelo Dr. Petronio Melo em 06/11/2026
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Dr. Petronio Melo dando aula sobre inteligência artificial, diante de um slide sobre uro-oncologia
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Resposta rápida

A inteligência artificial consegue encontrar e graduar o câncer de próstata em lâminas digitais. Em grandes estudos, a concordância com patologistas especialistas foi próxima à que eles têm entre si.4,5 No meu doutorado na USP, a concordância com uropatologistas chegou a 89% em um estudo pequeno, com um dos métodos testados.1 A tecnologia ajuda o patologista, e o diagnóstico continua sendo dele.6

Por que a patologia

O diagnóstico do câncer de próstata depende da leitura da lâmina pelo patologista. O número de biópsias cresce, faltam uropatologistas no mundo e dois especialistas podem dar notas diferentes à mesma lâmina. Essa variação pode levar a tratar demais ou de menos.4

Como funciona

A lâmina é digitalizada e dividida em pequenas partes. Um patologista marca nas imagens o que é tecido benigno e o que é cada padrão de Gleason. Com esses exemplos, uma rede neural aprende a reconhecer os padrões e depois é testada em lâminas que nunca viu.1

Lâmina de prostatectomia radical vista ao microscópio, com glândulas na parte de cima e estroma embaixoA mesma lâmina com a marcação automática do modelo: padrão de Gleason 3 em vermelho e estroma em azul
Lâmina de prostatectomia e a predição do modelo: padrão de Gleason 3 em vermelho, estroma em azul. Adaptada de Melo PAS et al. Clinics, 2021, CC BY 4.0.

O que eu pesquisei

No doutorado na Faculdade de Medicina da USP, com orientação da Profa. Dra. Katia Ramos Moreira Leite, comparei a inteligência artificial com a avaliação de uropatologista especialista em peças de prostatectomia radical.2

Em um dos trabalhos, usamos 12 lâminas para treinar o sistema e 3 novas para testá-lo, com dois métodos:1

MétodoComo funcionaResultado
ClassificaçãoDá um único rótulo a cada imagem94,1% de acerto no treino e 44% de concordância com os uropatologistas nas lâminas novas
VarreduraDelimita cada área da lâmina e dá um rótulo a ela91,2% de acerto no treino e 89% de concordância com os uropatologistas nas lâminas novas

O número de lâminas foi pequeno. O resultado mostra que a forma de treinar o sistema muda muito o que ele entrega, e que um bom número no treino não garante um bom número em lâminas novas.1

Em 2019, um trabalho dessa pesquisa, feito com Carmen Estivallet e Katia Leite, recebeu o 2º lugar no XXXVII Congresso Brasileiro de Urologia. Em 2024, participei com a Profa. Katia de uma revisão sobre o tema.3

O que os estudos maiores mostram

EstudoComo foi feitoResultado
Suécia, 20206.682 lâminas no treino e 1.631 biópsias no testeÁrea sob a curva de 0,997 para separar tecido benigno de câncer. Na nota de Gleason, concordância de 0,62, na faixa dos especialistas (0,60 a 0,73)
PANDA, 202210.616 biópsias digitalizadas e 1.290 desenvolvedoresConcordância de 0,862 e 0,868 com uropatologistas especialistas, nos Estados Unidos e na Europa
Paige Prostate, 202318 patologistas, 610 biópsias, com e sem ajuda do sistemaMelhora da sensibilidade e da especificidade com a ajuda. Levou à primeira autorização da FDA na área

A concordância é medida de 0 a 1, e quanto mais perto de 1, maior.

Além do diagnóstico

A tecnologia também está sendo estudada para prever a evolução da doença. Em um estudo com dados de 5.727 pacientes, um modelo com imagens da lâmina e dados clínicos foi validado em 1.594 homens de um estudo randomizado. Nos 34% apontados pelo modelo, a terapia hormonal reduziu o risco de metástase. Nos demais, ela não trouxe benefício.7

Essa também é a linha do trabalho que apresentei no congresso da Associação Americana de Urologia em 2024, sobre um modelo para prever a recidiva a partir de dados clínicos e histológicos.

Os limites

O estudo PANDA mostrou bons resultados em lâminas de vários países e pediu avaliação em estudos prospectivos.5 Um sistema pode errar em lâminas diferentes daquelas do treino, o que também apareceu no nosso estudo.1 O diagnóstico continua sob responsabilidade do patologista.

Como eu conduzo

Na minha prática, a decisão parte do laudo do patologista, lido junto com o PSA, o toque e a ressonância. Quando o tratamento depende de um detalhe, posso pedir a revisão das lâminas por um uropatologista.

Quando procurar o urologista

  • Se você recebeu um laudo de biópsia e quer entender a nota de Gleason
  • Se o tratamento depende de um detalhe do laudo
  • Se quer uma segunda leitura das lâminas

Perguntas frequentes

A inteligência artificial substitui o patologista?

Não. Os sistemas estudados ajudam o patologista a ler a lâmina, e o estudo PANDA defende que eles ainda sejam testados em estudos prospectivos.5,6

A inteligência artificial acerta o Gleason?

Em estudos com lâminas digitais, os melhores sistemas tiveram concordância próxima à de patologistas especialistas.4,5 O resultado depende de como o sistema foi treinado. No meu estudo, a concordância foi de 44% com um método e de 89% com outro.1

Existe sistema aprovado para uso?

Sim. O Paige Prostate foi o primeiro sistema de inteligência artificial em patologia autorizado pela agência americana FDA.6

Meu laudo foi feito com inteligência artificial?

Pergunte ao laboratório que fez o exame. O laudo traz a assinatura do patologista, que responde pelo diagnóstico.

A tecnologia ajuda a escolher o tratamento?

Ela está sendo estudada para isso. Em um estudo com 5.727 pacientes, um modelo com imagens da lâmina e dados clínicos identificou quem poderia se beneficiar da terapia hormonal junto com a radioterapia.7

Referências

  1. Melo PAS, Estivallet CLN, Srougi M, et al. Detecting and grading prostate cancer in radical prostatectomy specimens through deep learning techniques. Clinics (Sao Paulo). 2021;76:e3198. PubMed
  2. Melo PAS. Concordância entre inteligência artificial e uropatologista expert na detecção e graduação histológica do câncer de próstata em espécimes de prostatectomia radical. Tese de doutorado. Faculdade de Medicina da USP; 2023. USP
  3. Leite KRM, Melo PAS. Artificial Intelligence in Uropathology. Diagnostics (Basel). 2024;14(20). PubMed
  4. Ström P, Kartasalo K, Olsson H, et al. Artificial intelligence for diagnosis and grading of prostate cancer in biopsies: a population-based, diagnostic study. Lancet Oncol. 2020;21(2):222-232. PubMed
  5. Bulten W, Kartasalo K, Chen PC, et al. Artificial intelligence for diagnosis and Gleason grading of prostate cancer: the PANDA challenge. Nat Med. 2022;28(1):154-163. PubMed
  6. Raciti P, Sue J, Retamero JA, et al. Clinical Validation of Artificial Intelligence-Augmented Pathology Diagnosis Demonstrates Significant Gains in Diagnostic Accuracy in Prostate Cancer Detection. Arch Pathol Lab Med. 2023;147(10):1178-1185. PubMed
  7. Spratt DE, Tang S, Sun Y, et al. Artificial Intelligence Predictive Model for Hormone Therapy Use in Prostate Cancer. NEJM Evid. 2023;2(8):EVIDoa2300023. PubMed

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