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Gleason, ISUP e laudo da biópsia

Como ler o que está escrito no resultado da biópsia de próstata.

Dr. Petronio Melo, urologistaCRM-SP 157.598 · RQE 70.275
Revisado pelo Dr. Petronio Melo em 06/11/2026
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Lâmina de próstata vista ao microscópio, com glândulas na parte de cima e estroma embaixo
Lâmina de próstata ao microscópio. Adaptada de Melo PAS et al. Clinics, 2021, CC BY 4.0.
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Resposta rápida

O Gleason e o grupo ISUP medem a agressividade do câncer de próstata ao microscópio. O Gleason aparece como dois números somados, como 3+4=7, e o grupo ISUP resume esse resultado em uma escala de 1 a 5.1,3 Quanto maior o grupo, mais agressivo costuma ser o tumor. O grupo 1, que corresponde ao Gleason 6, é o mais baixo.1

Como funciona o Gleason

O patologista olha os fragmentos da biópsia ao microscópio e dá uma nota ao desenho das glândulas. Quanto mais o tecido perde a organização normal, maior a nota.

O laudo soma dois padrões. Em um Gleason 3+4=7, o 3 é o padrão predominante, e o 4 é o padrão seguinte. A ordem muda o significado: 3+4 e 4+3 somam 7, mas têm comportamentos diferentes.1,2

Três desenhos de tecido ao microscópio: no padrão 3, glândulas separadas; no padrão 4, glândulas fundidas; no padrão 5, células sem formar glândulas. Abaixo, os grupos ISUP de 1 a 5.
Quanto mais o tecido perde a organização, maior o padrão. Abaixo, cada grupo ISUP com o seu Gleason. Desenho simplificado.

Gleason e grupo ISUP

Os grupos ISUP foram criados em 2014 para simplificar a escala e separar melhor os resultados.1 Um estudo com 20.845 homens operados comparou cada grupo com o grupo 1, medindo a chance de o PSA voltar a subir depois da cirurgia:2,3

GleasonGrupo ISUPChance de o PSA voltar a subir
6 (3+3)1Grupo de comparação
7 (3+4)21,9 vez maior
7 (4+3)35,1 vezes maior
848 vezes maior
9 e 10511,7 vezes maior

Esses números comparam grupos de pacientes e não dizem o que vai acontecer com você.

O que mais vem no laudo

Além do Gleason, vale olhar:

  • Fragmentos com câncer: quantos foram retirados, quantos tinham tumor e qual parte de cada um estava tomada.
  • Quantidade de padrão 4: a conferência da ISUP de 2019 discutiu como informar esse dado.4
  • Padrão cribriforme: um desenho de glândulas que conta como padrão 4 e deve ser informado.1,4
  • Carcinoma intraductal: achado associado a tumores agressivos.1

ASAP e PIN de alto grau

Esses dois achados não são diagnóstico de câncer.

ASAP é a sigla em inglês de proliferação acinar atípica de pequenos ácinos. O patologista viu glândulas suspeitas, sem elementos para confirmar câncer. Isso acontece em menos de 5% das biópsias.3

Na PIN de alto grau, as células têm alterações, mas o impacto clínico do achado é desconhecido.3

Em uma série recente citada pela diretriz europeia, a chance de achar um câncer clinicamente significativo em nova biópsia foi de 6% a 8%, sem diferença importante em relação a uma biópsia anterior negativa. Por isso, a diretriz não pede nova biópsia de rotina.3 Uma revisão de 16 estudos sobre ASAP encontrou 12,1%.6 Se a suspeita continuar, a ressonância é o próximo passo.3

Do laudo ao grupo de risco

O grupo ISUP é uma das peças da decisão. A diretriz europeia combina esse dado com o PSA e o exame de toque:3

Grupo de riscoCritérios
BaixoISUP 1 e PSA abaixo de 10 ng/mL
Intermediário favorávelISUP 2 e PSA abaixo de 10, ou ISUP 1 e PSA de 10 a 20 ng/mL
Intermediário desfavorávelISUP 2 e PSA de 10 a 20 ng/mL, ou ISUP 3
AltoISUP 4 ou 5, ou PSA acima de 20 ng/mL
Localmente avançadoTumor que ultrapassa a próstata ao exame, ou gânglios comprometidos

Nos quatro primeiros grupos, o tumor está limitado à próstata no exame de toque. Para ver como isso orienta a escolha, leia cirurgia ou radioterapia.

Minha pesquisa nessa área

No doutorado na USP, estudei a inteligência artificial na detecção e na graduação do câncer de próstata em peças de prostatectomia radical. Os modelos foram treinados com lâminas anotadas por patologistas, com áreas de estroma, glândulas normais e padrões de Gleason 3, 4 e 5.7

A mesma lâmina com a marcação automática do modelo: padrão de Gleason 3 em vermelho e estroma em azul
A lâmina do alto da página, com a predição do modelo: padrão de Gleason 3 em vermelho e estroma em azul.

Como eu conduzo

Na minha prática, eu leio o laudo inteiro com o paciente e explico cada linha, sem olhar só o número do Gleason. Quando a decisão depende de um detalhe do laudo, posso pedir a revisão das lâminas por um uropatologista. Depois, juntamos o laudo com o PSA, o exame de toque e a ressonância para definir o grupo de risco.

Quando procurar o urologista

  • Se o laudo trouxer câncer, ASAP ou PIN de alto grau
  • Se você não entendeu o resultado
  • Se quiser uma segunda opinião antes de decidir o tratamento

Perguntas frequentes

Gleason 6 é grave?

Gleason 6 é o grau mais baixo em uso, equivalente ao grupo ISUP 1.1 A escala vai até 10, e isso faz o número parecer mediano, mas ele está no início da escala.1 No baixo risco, a vigilância ativa é a conduta indicada pela diretriz europeia.5

Qual é a diferença entre Gleason 3+4 e 4+3?

Os dois somam 7, mas o primeiro número mostra o padrão predominante. O 3+4 é o grupo ISUP 2, e o 4+3 é o grupo ISUP 3.3 Depois da cirurgia, o risco de o PSA voltar a subir foi maior no 4+3.2

O que significa ISUP 2?

Corresponde ao Gleason 7 (3+4).3 Em casos selecionados com características favoráveis, a vigilância ativa pode ser discutida. Nos demais, conversamos sobre cirurgia e radioterapia.5

ASAP na próstata é câncer?

Não é um diagnóstico de câncer. Significa que o patologista viu glândulas suspeitas, sem certeza. Isso aparece em menos de 5% das biópsias.3 A diretriz europeia considera que uma nova biópsia de rotina não é necessária nessa situação.3

O que é PIN de alto grau?

É uma alteração das células da próstata que aparece na biópsia e não é câncer. O impacto clínico dela é desconhecido, e a diretriz europeia não orienta nova biópsia de rotina por esse achado.3

Referências

  1. Epstein JI, Egevad L, Amin MB, et al. The 2014 International Society of Urological Pathology (ISUP) Consensus Conference on Gleason Grading of Prostatic Carcinoma: Definition of Grading Patterns and Proposal for a New Grading System. Am J Surg Pathol. 2016;40(2):244-252. PubMed
  2. Epstein JI, Zelefsky MJ, Sjoberg DD, et al. A Contemporary Prostate Cancer Grading System: A Validated Alternative to the Gleason Score. Eur Urol. 2016;69(3):428-435. PubMed
  3. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer. European Association of Urology; 2026. EAU
  4. van Leenders GJLH, van der Kwast TH, Grignon DJ, et al. The 2019 International Society of Urological Pathology (ISUP) Consensus Conference on Grading of Prostatic Carcinoma. Am J Surg Pathol. 2020;44(8):e87-e99. PubMed
  5. Cornford P, van den Bergh RCN, Briers E, et al. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer, 2024 Update. Part I: Screening, Diagnosis, and Local Treatment with Curative Intent. Eur Urol. 2024;86(2):148-163. PubMed
  6. Ji WT, Jin XF, Wang Y, et al. The Rate of Clinically Significant Prostate Cancer on Repeat Biopsy after a Diagnosis of Atypical Small Acinar Proliferation: A Systematic Review and Meta-Analysis. Oncology. 2024;102(7):631-640. PubMed
  7. Melo PAS, Estivallet CLN, Srougi M, Nahas WC, et al. Detecting and grading prostate cancer in radical prostatectomy specimens through deep learning techniques. Clinics (Sao Paulo). 2021;76:e3198. PubMed

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