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Câncer de bexiga

Sintomas, estágios e o que muda quando o tumor invade o músculo.

Dr. Petronio Melo, urologistaCRM-SP 157.598 · RQE 70.275
Revisado pelo Dr. Petronio Melo em 06/11/2026
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Desenho das camadas da parede da bexiga com um tumor
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Resposta rápida

O câncer de bexiga nasce na camada que reveste a bexiga por dentro, e o sinal mais comum é sangue na urina. Cerca de 75% dos tumores não invadem o músculo no diagnóstico: são retirados pela uretra e podem precisar de instilações na bexiga. Quando o tumor invade o músculo, o tratamento muda e pode incluir a retirada da bexiga.

O que é

A bexiga guarda a urina, e o urotélio reveste a parede dela por dentro. É nessa camada que nasce a maior parte dos tumores.1

O INCA estima 13.110 casos novos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, sendo 9.040 em homens e 4.070 em mulheres. Sem contar o câncer de pele não melanoma, é o décimo câncer mais frequente no país.1

Quem tem mais risco

O tabagismo é o principal fator de risco e responde por cerca de metade dos casos. O risco sobe com o tempo e a quantidade: em relação a quem não fuma, é cerca de 2,5 vezes maior com 10 cigarros por dia e 3,3 vezes maior com 20.2

A exposição no trabalho vem em segundo lugar, com cerca de 10% dos casos, em indústrias de tintas, corantes, metais e petróleo.2 Radioterapia na pelve também pode aumentar o risco.2

Sintomas

O sangue na urina é o sinal mais comum, muitas vezes sem dor.3,4 Ele pode aparecer uma vez e sumir, e isso não dispensa a avaliação. Urgência, ardência e idas frequentes ao banheiro também podem acontecer, em especial no carcinoma in situ.3

Como é feito o diagnóstico

  1. ImagemUltrassom dos rins e da bexiga, tomografia das vias urinárias ou os dois.3
  2. CistoscopiaUm aparelho fino entra pela uretra e mostra a bexiga por dentro. Nenhum exame de urina substitui essa etapa.3
  3. CitologiaProcura células do tumor na urina e ajuda a achar os tumores de alto grau.3
  4. Ressecção pela uretraA RTU retira o tumor e manda o tecido para análise. Ela é, ao mesmo tempo, diagnóstico e primeiro tratamento.3

Estágios

O que mais pesa é a profundidade do tumor na parede da bexiga.

Animação esquemática: até onde o tumor chega em cada estágio.
EstágioO que significa
TaTumor papilar, preso à camada interna11
Carcinoma in situLesão plana e de alto grau, na camada interna11
T1Chega à lâmina própria, a camada de sustentação logo abaixo11
T2Invade o músculo11
T3 e T4Passa para a gordura ao redor ou para órgãos vizinhos11

Cerca de 75% dos pacientes têm doença sem invasão do músculo, e cerca de 25%, com invasão.2,4

Dois caminhos de tratamento: tumor que não invade o músculo, com ressecção pela uretra, instilações e cistoscopias; tumor que invade, com retirada da bexiga e tratamento sistêmico, ou preservação da bexiga com ressecção, quimioterapia e radioterapia
A invasão do músculo separa os dois caminhos.

Tumor que não invade o músculo

Depois da RTU, o tratamento segue o grupo de risco, que considera tamanho, número de tumores, grau e estágio.5

RiscoChance de progredirO que orienta a diretriz europeia
BaixoDesprezívelAcompanhamento com cistoscopias10
Intermediário7,4% a 8,5% em 10 anosQuimioterapia na bexiga por até um ano, ou BCG por um ano5
Alto14% em 10 anosBCG de um a três anos, com conversa sobre retirar a bexiga5
Muito alto53,1% a 58,6% em 10 anosRetirada da bexiga, ou BCG em quem não quer ou não pode operar5

O BCG é uma imunoterapia colocada na bexiga por sonda. O esquema completo tem seis aplicações semanais e reforços de três aplicações semanais aos 3, 6, 12, 18, 24, 30 e 36 meses.5

Uma segunda RTU, de duas a seis semanas depois da primeira, é indicada em tumores T1, quando a primeira ficou incompleta ou quando não veio músculo na amostra, com exceções.3 Em tumores T1, revisões acharam tumor nessa segunda ressecção em 31% a 51% dos casos.3

A primeira cistoscopia de controle é feita três meses depois da RTU, e o ritmo seguinte depende do risco.10 Fumar aumenta o risco de o tumor voltar e progredir, e parar faz parte do tratamento.5

Tumor que invade o músculo

A diretriz europeia de 2026 indica tratamento sistêmico antes e depois da cirurgia para quem pode recebê-lo. Para quem pode usar cisplatina, a opção indicada é quimioterapia com durvalumabe. Para quem não pode, enfortumabe vedotina com pembrolizumabe.6 No estudo NIAGARA, a sobrevida em dois anos foi de 82,2% com durvalumabe e de 75,2% sem ele.7

A cistectomia radical retira a bexiga e os gânglios da pelve, e a urina passa a sair por um novo caminho, em geral feito com um trecho do intestino.6 A cirurgia não deve demorar mais de três meses, a não ser que o paciente esteja em quimioterapia antes dela.6

A cistectomia robótica e a aberta têm complicações em 90 dias, margens e resultados de médio prazo semelhantes. A robótica leva de 1 a 1,5 hora a mais e sangra menos.6 Em um estudo britânico, quem operou com robô passou 82 dos primeiros 90 dias vivo e fora do hospital, contra 80 na cirurgia aberta, com menos trombose e menos problemas na ferida.8 A experiência da equipe pesa mais que a técnica.6

O tratamento que preserva a bexiga combina ressecção, quimioterapia e radioterapia. Em pacientes bem selecionados, a sobrevida de longo prazo é comparável à da cirurgia, e a bexiga precisa de acompanhamento depois.6

Como eu conduzo

Na minha prática, eu explico com calma o resultado da patologia, porque é dele que sai o próximo passo. A decisão é tomada junto com o paciente, e a família participa se ele quiser. Sobre a segunda ressecção, publiquei em 2017 uma revisão da literatura com os resultados de um centro.

Quando procurar o urologista

  • Se aparecer sangue na urina, mesmo que tenha sido uma vez só
  • Se um exame de urina mostrar sangue que não se vê a olho nu
  • Se a ardência ou a urgência para urinar não melhorarem depois de tratar uma infecção
  • Se sair coágulo ou não conseguir urinar, com contato no mesmo dia

Perguntas frequentes

Qual é o primeiro sintoma do câncer de bexiga?

O mais comum é sangue na urina, muitas vezes sem dor.4 Urgência, ardência e idas frequentes ao banheiro também podem aparecer.4

Sangue na urina é sempre câncer?

Não, mas precisa de avaliação. O sangue visível está ligado a estágios mais altos no diagnóstico que o sangue visto só no exame.3

Câncer de bexiga tem cura?

Depende do estágio. Nos tumores que não invadem o músculo, a sobrevida da maioria é favorável, mas o tumor pode voltar e exige acompanhamento.9 Nos que invadem, o tratamento é feito com intenção de cura em quem pode recebê-lo.6

Vou precisar tirar a bexiga?

Nem sempre. Cerca de 75% dos tumores não invadem o músculo no diagnóstico e começam pela ressecção pela uretra.2 Quando invadem, a retirada da bexiga ou o tratamento que preserva a bexiga são as opções com intenção de cura.6

O que é BCG na bexiga?

É uma imunoterapia colocada dentro da bexiga por sonda. Ela reduz o risco de o tumor voltar nos casos de risco intermediário e alto.5

Parar de fumar ajuda depois do diagnóstico?

Sim. Fumar aumenta o risco de o tumor voltar e progredir, e a diretriz europeia pede que todo fumante receba orientação para parar.5

Referências

  1. Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026-2028: incidência de câncer no Brasil. Síntese de resultados e comentários. Rio de Janeiro: INCA; 2026. INCA
  2. EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de epidemiologia e causas. EAU
  3. EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de diagnóstico. EAU
  4. EAU Guidelines on Muscle-invasive and Metastatic Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de epidemiologia e causas. EAU
  5. EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de tratamento. EAU
  6. EAU Guidelines on Muscle-invasive and Metastatic Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de tratamento. EAU
  7. Powles T, Catto JWF, Galsky MD, et al. Perioperative Durvalumab with Neoadjuvant Chemotherapy in Operable Bladder Cancer. N Engl J Med. 2024;391(19):1773-1786. PubMed
  8. Catto JWF, Khetrapal P, Ricciardi F, et al. Effect of Robot-Assisted Radical Cystectomy With Intracorporeal Urinary Diversion vs Open Radical Cystectomy on 90-Day Morbidity and Mortality Among Patients With Bladder Cancer. JAMA. 2022;327(21):2092-2103. PubMed
  9. Clark PE, Holzbeierlein J, Chang SS, et al. 2026 Updates to the Diagnosis and Treatment of Non-muscle Invasive Bladder Cancer: AUA/SUO Guideline. J Urol. 2026. PubMed
  10. EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de acompanhamento. EAU
  11. EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de estadiamento e classificação. EAU

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