Resposta rápida
O câncer de bexiga nasce na camada que reveste a bexiga por dentro, e o sinal mais comum é sangue na urina. Cerca de 75% dos tumores não invadem o músculo no diagnóstico: são retirados pela uretra e podem precisar de instilações na bexiga. Quando o tumor invade o músculo, o tratamento muda e pode incluir a retirada da bexiga.
O que é
A bexiga guarda a urina, e o urotélio reveste a parede dela por dentro. É nessa camada que nasce a maior parte dos tumores.1
O INCA estima 13.110 casos novos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, sendo 9.040 em homens e 4.070 em mulheres. Sem contar o câncer de pele não melanoma, é o décimo câncer mais frequente no país.1
Quem tem mais risco
O tabagismo é o principal fator de risco e responde por cerca de metade dos casos. O risco sobe com o tempo e a quantidade: em relação a quem não fuma, é cerca de 2,5 vezes maior com 10 cigarros por dia e 3,3 vezes maior com 20.2
A exposição no trabalho vem em segundo lugar, com cerca de 10% dos casos, em indústrias de tintas, corantes, metais e petróleo.2 Radioterapia na pelve também pode aumentar o risco.2
Sintomas
O sangue na urina é o sinal mais comum, muitas vezes sem dor.3,4 Ele pode aparecer uma vez e sumir, e isso não dispensa a avaliação. Urgência, ardência e idas frequentes ao banheiro também podem acontecer, em especial no carcinoma in situ.3
Como é feito o diagnóstico
- ImagemUltrassom dos rins e da bexiga, tomografia das vias urinárias ou os dois.3
- CistoscopiaUm aparelho fino entra pela uretra e mostra a bexiga por dentro. Nenhum exame de urina substitui essa etapa.3
- CitologiaProcura células do tumor na urina e ajuda a achar os tumores de alto grau.3
- Ressecção pela uretraA RTU retira o tumor e manda o tecido para análise. Ela é, ao mesmo tempo, diagnóstico e primeiro tratamento.3
Estágios
O que mais pesa é a profundidade do tumor na parede da bexiga.
| Estágio | O que significa |
|---|---|
| Ta | Tumor papilar, preso à camada interna11 |
| Carcinoma in situ | Lesão plana e de alto grau, na camada interna11 |
| T1 | Chega à lâmina própria, a camada de sustentação logo abaixo11 |
| T2 | Invade o músculo11 |
| T3 e T4 | Passa para a gordura ao redor ou para órgãos vizinhos11 |
Cerca de 75% dos pacientes têm doença sem invasão do músculo, e cerca de 25%, com invasão.2,4

Tumor que não invade o músculo
Depois da RTU, o tratamento segue o grupo de risco, que considera tamanho, número de tumores, grau e estágio.5
| Risco | Chance de progredir | O que orienta a diretriz europeia |
|---|---|---|
| Baixo | Desprezível | Acompanhamento com cistoscopias10 |
| Intermediário | 7,4% a 8,5% em 10 anos | Quimioterapia na bexiga por até um ano, ou BCG por um ano5 |
| Alto | 14% em 10 anos | BCG de um a três anos, com conversa sobre retirar a bexiga5 |
| Muito alto | 53,1% a 58,6% em 10 anos | Retirada da bexiga, ou BCG em quem não quer ou não pode operar5 |
O BCG é uma imunoterapia colocada na bexiga por sonda. O esquema completo tem seis aplicações semanais e reforços de três aplicações semanais aos 3, 6, 12, 18, 24, 30 e 36 meses.5
Uma segunda RTU, de duas a seis semanas depois da primeira, é indicada em tumores T1, quando a primeira ficou incompleta ou quando não veio músculo na amostra, com exceções.3 Em tumores T1, revisões acharam tumor nessa segunda ressecção em 31% a 51% dos casos.3
A primeira cistoscopia de controle é feita três meses depois da RTU, e o ritmo seguinte depende do risco.10 Fumar aumenta o risco de o tumor voltar e progredir, e parar faz parte do tratamento.5
Tumor que invade o músculo
A diretriz europeia de 2026 indica tratamento sistêmico antes e depois da cirurgia para quem pode recebê-lo. Para quem pode usar cisplatina, a opção indicada é quimioterapia com durvalumabe. Para quem não pode, enfortumabe vedotina com pembrolizumabe.6 No estudo NIAGARA, a sobrevida em dois anos foi de 82,2% com durvalumabe e de 75,2% sem ele.7
A cistectomia radical retira a bexiga e os gânglios da pelve, e a urina passa a sair por um novo caminho, em geral feito com um trecho do intestino.6 A cirurgia não deve demorar mais de três meses, a não ser que o paciente esteja em quimioterapia antes dela.6
A cistectomia robótica e a aberta têm complicações em 90 dias, margens e resultados de médio prazo semelhantes. A robótica leva de 1 a 1,5 hora a mais e sangra menos.6 Em um estudo britânico, quem operou com robô passou 82 dos primeiros 90 dias vivo e fora do hospital, contra 80 na cirurgia aberta, com menos trombose e menos problemas na ferida.8 A experiência da equipe pesa mais que a técnica.6
O tratamento que preserva a bexiga combina ressecção, quimioterapia e radioterapia. Em pacientes bem selecionados, a sobrevida de longo prazo é comparável à da cirurgia, e a bexiga precisa de acompanhamento depois.6
Como eu conduzo
Na minha prática, eu explico com calma o resultado da patologia, porque é dele que sai o próximo passo. A decisão é tomada junto com o paciente, e a família participa se ele quiser. Sobre a segunda ressecção, publiquei em 2017 uma revisão da literatura com os resultados de um centro.
Quando procurar o urologista
- Se aparecer sangue na urina, mesmo que tenha sido uma vez só
- Se um exame de urina mostrar sangue que não se vê a olho nu
- Se a ardência ou a urgência para urinar não melhorarem depois de tratar uma infecção
- Se sair coágulo ou não conseguir urinar, com contato no mesmo dia
Perguntas frequentes
Qual é o primeiro sintoma do câncer de bexiga?+
O mais comum é sangue na urina, muitas vezes sem dor.4 Urgência, ardência e idas frequentes ao banheiro também podem aparecer.4
Sangue na urina é sempre câncer?+
Não, mas precisa de avaliação. O sangue visível está ligado a estágios mais altos no diagnóstico que o sangue visto só no exame.3
Câncer de bexiga tem cura?+
Depende do estágio. Nos tumores que não invadem o músculo, a sobrevida da maioria é favorável, mas o tumor pode voltar e exige acompanhamento.9 Nos que invadem, o tratamento é feito com intenção de cura em quem pode recebê-lo.6
Vou precisar tirar a bexiga?+
Nem sempre. Cerca de 75% dos tumores não invadem o músculo no diagnóstico e começam pela ressecção pela uretra.2 Quando invadem, a retirada da bexiga ou o tratamento que preserva a bexiga são as opções com intenção de cura.6
O que é BCG na bexiga?+
É uma imunoterapia colocada dentro da bexiga por sonda. Ela reduz o risco de o tumor voltar nos casos de risco intermediário e alto.5
Parar de fumar ajuda depois do diagnóstico?+
Sim. Fumar aumenta o risco de o tumor voltar e progredir, e a diretriz europeia pede que todo fumante receba orientação para parar.5
Referências
- Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026-2028: incidência de câncer no Brasil. Síntese de resultados e comentários. Rio de Janeiro: INCA; 2026. INCA
- EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de epidemiologia e causas. EAU
- EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de diagnóstico. EAU
- EAU Guidelines on Muscle-invasive and Metastatic Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de epidemiologia e causas. EAU
- EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de tratamento. EAU
- EAU Guidelines on Muscle-invasive and Metastatic Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de tratamento. EAU
- Powles T, Catto JWF, Galsky MD, et al. Perioperative Durvalumab with Neoadjuvant Chemotherapy in Operable Bladder Cancer. N Engl J Med. 2024;391(19):1773-1786. PubMed
- Catto JWF, Khetrapal P, Ricciardi F, et al. Effect of Robot-Assisted Radical Cystectomy With Intracorporeal Urinary Diversion vs Open Radical Cystectomy on 90-Day Morbidity and Mortality Among Patients With Bladder Cancer. JAMA. 2022;327(21):2092-2103. PubMed
- Clark PE, Holzbeierlein J, Chang SS, et al. 2026 Updates to the Diagnosis and Treatment of Non-muscle Invasive Bladder Cancer: AUA/SUO Guideline. J Urol. 2026. PubMed
- EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de acompanhamento. EAU
- EAU Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer. European Association of Urology; 2026. Capítulo de estadiamento e classificação. EAU
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